A Jogada do Inimigo: Como a Direita Deu a Lula o Senado dos Sonhos — e Sacrificou o Futuro Fiscal do Brasil

A Jogada do Inimigo: Como a Direita Deu a Lula o Senado dos Sonhos — e Sacrificou o Futuro Fiscal do Brasil

Da Redação — No jogo de xadrez da política brasileira, nem as vitorias mais comemoradas costumam ser o que parecem. Quando o deputado alagoano Alfredo Gaspar (PL) aceitou compor como vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, a oposição celebrou a escalação de um nome linha-dura da segurança pública para alavancar a bancada conservadora no Congresso.

​O que poucos previram foi o efeito colateral imediato desse movimento nos bastidores do poder: em uma única cartada, a oposição pacificou a eleição em Alagoas, pavimentou o caminho dos maiores caciques do Centrão e do MDB ao Senado e entregou no colo do Palácio do Planalto exatamente o cenário de governabilidade que Lula sempre desejou.

O Nó Cego Desfeito em Alagoas

​Até pouco tempo, a disputa pelas duas vagas de senador por Alagoas se desenhava como uma verdadeira "guerra de gigantes". De um lado, a raposa política Renan Calheiros (MDB), pilar de sustentação governista; do outro, o pragmático Arthur Lira (PP), articulador implacável da Câmara; e, no centro da disputa, Alfredo Gaspar, forte liderança de direita com apelo eleitoral suficiente para estragar os planos de qualquer um dos dois.

​Com três nomes de peso para apenas duas cadeiras, a matemática era implacável: um dos caciques ficaria pelo caminho.

​A saída voluntária — e involuntariamente estratégica — de Gaspar para o cenário nacional desatou o nó. Sem o candidato da oposição no pálio estadual, a eleição para o Senado em Alagoas virou um passeio de comadres. Calheiros e Lira, antes dispostos a se trucidar, ganharam o sinal verde para ocuparem juntos a Casa Alta a partir de 2027.

O Cerco a Davi Alcolumbre

​Se o Planalto sorri com a estabilidade no Nordeste, em Brasília o clima é de apreensão. A desembarcada simultânea de Arthur Lira e a reeleição de Renan Calheiros representam um míssil na linha de flutuação de Davi Alcolumbre, o influente senador amapaense que tenta manter o controle absoluto do Senado.

​Lira não entra no Senado para ser coadjuvante. Com uma rede imensa de aliados eleitos no Centrão e o domínio das engrenagens do orçamento, Lira surge como uma força gravitacional capaz de rivalizar com o monopólio de articulação de Alcolumbre. Por outro lado, Renan Calheiros traz quatro mandatos de presidência na bagagem e o apoio velado do governo para impedir que Lira se torne o "dono" da Casa.

​Para o Planalto, a fratura no grupo de Alcolumbre cria uma margem de manobra inédita. Para o país, contudo, a disputa sinaliza que a presidência do Senado em 2027 será leiloada ao preço de ouro em emendas, cargos e concessões fiscais.

​O Vencedor Leva Tudo, mas o País Paga a Conta

​À medida que a polarização entre Lula e a chapa Flávio/Gaspar afunila a eleição presidencial, a cena política escancara sua contradição mais cruel: a política ganha estabilidade, mas o Brasil continua à deriva na gestão das suas contas.

​Enquanto a oposição aposta em puxar votos ideológicos para inchar sua bancada, e o governo se esmera em acomodar os interesses de Lira, Renan e Alcolumbre, o debate sobre o abismo fiscal do país é empurrado para debaixo do tapete. Com um orçamento engessado por despesas obrigatórias e a dívida pública em rota ascendente, a governabilidade comprada na base do pragmático Centrão custa cada vez mais caro ao contribuinte.

​Involuntariamente, Alfredo Gaspar cumpriu o desejo de Lula ao pacificar o Senado. Mas, ao fim do dia, a verdadeira ironia não está em quem ganha ou perde a eleição — está no fato de que, enquanto os generais da política comemoram suas jogadas de mestre, o país segue refém de um sistema que gasta a energia do futuro para pagar os arranjos do presente.

No fim das contas, fica a provocação ao eleitor: Será que a escolha do vice na chapa de Flávio Bolsonaro não escondeu uma oportunidade perdida para a própria oposição? Se o lugar da vice tivesse sido ocupado por uma liderança feminina de peso — garantindo a atração orgânica do eleitorado feminino para a campanha nacional —, Alfredo Gaspar poderia ter permanecido em Alagoas para disputar e assegurar a cadeira no Senado. Valeu a pena a oposição abrir mão de uma vaga estratégica no Congresso em nome dessa composição nacional, ou o pragmatismo falou mais alto que a estratégia?

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