Dois pesos e duas medidas
O embate entre as decisões do ministro André Mendonça e o parecer do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, expõe uma contradição gritante. Ao classificar como “nulas” as diligências contra colegas de Corte por suposta falta de pedido do Ministério Público, a PGR evoca o rigor do devido processo legal. No entanto, a opinião pública e o meio jurídico não se esquecem: o mesmo rigor garantista que se exige agora faltou ao longo dos últimos anos, quando inquéritos foram abertos de ofício, sem provocação inicial e sem sorteio de relator. Quando as regras do jogo mudam conforme a cara do investigado, a coerência do sistema rui e a sensação de injustiça se consolida.
O desgaste do "capital reputacional"
Como bem alertam juristas e constitucionalistas, a autoridade de uma Corte Suprema não se sustenta apenas pelo texto impresso na Constituição, mas pela credibilidade que ela transmite à sociedade. Quando relatórios apontam proximidade indevida entre magistrados e investigados, e quando contratos milionários orbitam os gabinetes do poder, o Supremo sofre um desgaste profundo. O risco iminente é o descrédito civilizatório: um cenário perigoso em que o cidadão deixa de enxergar nas decisões do Judiciário a busca pela Justiça e passa a ver apenas o cumprimento de conveniências políticas.
A armadilha da paralisia cruzada
Mas por que nada acontece? A resposta está no que podemos chamar de paralisia cruzada entre o STF e o Senado Federal. O sistema constitucional de freios e contrapesos foi desenhado para que o Senado fiscalizasse os abusos do Judiciário por meio do impeachment. Na prática, porém, criou-se um pacto velado de sobrevivência mútua:
A faca no pescoço: Dezenas de parlamentares respondem a inquéritos que tramitam no próprio STF, deixando a chave do destino político desses senadores nas mãos dos ministros.
A chave da gaveta: Por outro lado, o Presidente do Senado detém o poder exclusivo de engavetar ou pautar os pedidos de impeachment contra integrantes da Suprema Corte.
Esse jogo de dependência mútua travou as instituições. Nem o Senado cumpre seu papel de fiscalizar, nem o STF se submete ao escrutínio público sem reagir com corporativismo.
O que resta para o país?
Superar essa crise exige mais do que notas oficiais ou manobras regimentais. O resgate da credibilidade exige o óbvio: investigações transparentes e sem blindagens para quem quer que seja, afastamento voluntário de magistrados sob suspeita e o fim da chantagem institucional entre os Poderes. Sem uma autocrítica real e sem a coragem de passar o país a limpo, o Brasil continuará refém da perigosa impressão de que as leis foram feitas para punir o cidadão comum, mas se dissolvem quando chegam aos gabinetes mais poderosos da República.
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