O Teatro dos Quatro Anos: Como o Interior Vira Figurante da Própria História

O Teatro dos Quatro Anos: Como o Interior Vira Figurante da Própria História

Cidades com mais de quatro séculos de história e mais de um século de autonomia administrativa, donas de riquezas naturais inestimáveis e de um povo que carrega o país nas costas, compartilham hoje o mesmo diagnóstico doloroso: o esvaziamento. Não é apenas um esvaziamento demográfico; é um esvaziamento de futuro. O roteiro é conhecido por qualquer um que viva no interior: para estudar em uma universidade, conseguir um emprego digno ou tratar uma saúde de média complexidade, o cidadão precisa arrumar as malas.

É a exportação forçada dos nossos maiores talentos.

​Mas o que a velha política faz diante disso? Cria uma engrenagem perfeita baseada na amnésia coletiva e no cinismo eleitoral.

O Milagre do Ano Bissexto e a Desculpa da "Falta de Verba"

​Durante três anos e meio de mandato, o discurso oficial das prefeituras é uma lamúria só. Diante da falta de médicos, viaturas policiais sucateadas e muitas vezes tem mais viaturas que efetivo policial ou de escolas de tempo integral que nunca saem do papel, a culpa é sempre jogada no mesmo CNPJ: Brasília ou o Governo do Estado. "O município não tem verba própria", repetem como um mantra justificando a própria incompetência.

Porém, basta o ano eleitoral chegar para que o milagre aconteça. Subitamente, as redes sociais dos gestores se enchem de maquetes eletrônicas e promessas de 'recursos que estão por vir'; deputados e senadores, que não deram as caras por três anos e meio, surgem com a clássica reprise das mesmas promessas da campanha anterior. A culpa do fracasso passado é terceirizada para a oposição ou para a burocracia, enquanto o direito básico do cidadão — como asfalto e saneamento — é vendido como um favor pessoal de época de eleição.

O dinheiro que some nos gabinetes ou que é mal gerido não desaparece no éter. Ele se materializa na falta de oportunidades que obriga o jovem a ir embora e na impunidade daqueles que enriquecem no poder, compram imóveis nos grandes centros e mudam de endereço assim que o mandato acaba.

Da Gráfica de Santinhos ao Cabo Eleitoral Gratuito e Digital

​A corrupção e o marketing político evoluíram, mas o eleitor parece ter regredido. Antigamente, o político precisava gastar fortunas físicas para se fazer notar: eram carros de som, bandeiras e os famosos "santinhos" impressos, muitas vezes usados para lavar dinheiro com notas fiscais frias de gráficas de fachada.

​Hoje, o cenário é muito mais barato para eles e muito mais trágico para nós. Com os Fundos Eleitorais bilionários nas mãos, o político moderno descobriu que não precisa gastar quase nada com estrutura física. Quem faz a campanha dele, de graça e durante os quatro anos de gestão, é o próprio eleitor.

​As redes sociais anestesiaram a capacidade de cobrança. O debate público foi rebaixado ao nível de uma torcida organizada de futebol. O cidadão passa o dia no celular defendendo seu "político de estimação", brigando com o vizinho no Instagram e celebrando quando seu candidato "mitou" ou "lacrou" em um vídeo curto de internet.

Enquanto o eleitor se perde no algoritmo da internet, fingindo viver em Brasília ou em uma realidade paralela, a rua da sua cidade continua esburacada, o hospital local segue sem leitos e a juventude continua pegando o ônibus da migração. Como não lembrar da Linha 1 do metrô, com cerca de 4 quilômetros, construída em mais de 14 anos de recursos investidos e palco de inúmeras campanhas? Ou da ponte que ligará Salvador a Itaparica, que já soma 20 anos de promessas? Agora, ambos estarão nos discursos dos políticos, tanto da situação quanto da oposição. Mais um engodo político.

Até Quando Seremos Cúmplices do Nosso Próprio Atraso?

​Dizer que "será sempre para pior" não é pessimismo, é a constatação de quem cansa de ver o mesmo filme repetido. O sistema atual só mudará quando a tela do celular deixar de ser um escudo para blindar político incompetente.

​Os dados de arrecadação e os censos demográficos mostram que o país se move, mas a política do interior quer manter o povo estático, dependente e alienado. O voto não é um documento de lealdade a quem se muda para a capital no fim do mandato; o voto é uma cobrança com prazo de validade.

​Enquanto defendermos políticos como se fossem salvadores da pátria, continuaremos sendo uma terra de passado brilhante, mas sem nenhum jovem presente para construir o futuro. É hora de desligar a torcida digital e começar a olhar para o chão da nossa própria rua. Desafio, poste uma foto da sua rua nos grupos que você bate papo, ou nos comentários deste site.

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