Mesmo Enredo, Novos Atores: A Grande Ilusão do Eleitor Brasileiro

Mesmo Enredo, Novos Atores: A Grande Ilusão do Eleitor Brasileiro

Por Redação A cada quatro anos, o eleitor brasileiro é convidado a participar de uma espécie de "novela institucional". O enredo promete renovação, moralização das cortes e combate à corrupção. No entanto, quando a poeira das urnas baixa, o resultado é a perpetuação das mesmas práticas: um Congresso submisso, um Judiciário que avança sobre outros Poderes e uma população que não entende por que a prometida transformação nunca chega.

​A razão desse ciclo repetitivo reside em duas engrenagens centrais: o direcionamento cego da imprensa e dos influenciadores digitais e a pragmática dos acordos partidários que atropelam qualquer coerência ideológica.

​O Teatro Presidencial e a Cegueira sobre o Senado

​Tanto os grandes conglomerados de imprensa — como G1, UOL, CNN e SBTNews — quanto analistas e influenciadores das redes sociais concentram quase toda a atenção pública na disputa pelo Palácio do Planalto. A cada decisão polêmica ou vazamento vindo do Supremo Tribunal Federal (STF), a indignação popular é alimentada diariamente, mas canalizada para o embate superficial entre pré-candidatos à Presidência.

​Essa cobertura esconde o verdadeiro fiel da balança: o Senado Federal. É o Senado que possui a competência constitucional exclusiva (Artigo 52) de sabatinar, aprovar ou processar ministros do STF. Ao tratar o Congresso apenas como um "balcão de apoio" ao Executivo, a mídia e as redes induzem o cidadão a votar sem exigir dos candidatos a senador um compromisso pragmático de fiscalização e contrapeso ao Judiciário.

​A Trama dos Acordos: Quando a Oposição Alimenta o Sistema

​Se a imprensa oculta a importância do Senado, as cúpulas partidárias tratam de esvaziar qualquer promessa de mudança real por meio de alianças pragmáticas. O episódio recente envolvendo a exposição feita por Michelle Bolsonaro escancarou essa engrenagem para todo o país.

​Ao vir a público criticar e expor o acordo do Partido Liberal (PL) com figuras da esquerda tradicional no Ceará — como Ciro Gomes, histórico crítico do ex-presidente —, Michelle revelou o abismo existente entre o discurso de campanha e a engenharia eleitoral dos bastidores.

​Para os caciques partidários, o objetivo não é a construção de uma base coerente disposta a combater o status quo ou aprovar reformas profundas no Judiciário, mas sim a contagem fria de votos, tempo de rádio e bancadas estaduais. Para atingir essa meta, não há pejo* em se aliar a antigos detratores ou políticos que defenderam a manutenção da estrutura atual.

​A Mesma História com Novos Atores

​Ao aceitar o "toma lá, dá cá" das coligações regionais, os próprios partidos que prometem combater os abusos do sistema acabam elegendo parlamentares que, no dia seguinte, ajoelham-se perante o establishment.

​O eleitor vota acreditando na ruptura, mas entrega o mandato a senadores e deputados nascidos de arranjos com a "velha política". O resultado é uma troca meramente cenográfica: mudam-se alguns atores do elenco, mas o enredo da novela permanece exatamente o mesmo.

​Para que o Brasil saia dessa armadilha, a sociedade precisa parar de enxergar a eleição para o Senado como um apêndice da disputa presidencial e passar a cobrar coerência absoluta das siglas partidárias. Enquanto a indignação popular for usada como combustível eleitoral e descartada no momento das alianças de bastidor, o eleitor continuará assistindo, de mãos atadas, à manutenção da mesma história.

*(Pejo = pudor, vergonha ou acanhamento)

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