Para quem busca uma análise rasa, é fácil apontar o dedo apenas para o momento presente. Mas o jornalismo independente exige profundidade: a trágica lanterna no IPS não é um produto exclusivo da atual gestão. Trata-se de um reflexo que vem se arrastando desde os primórdios da emancipação política de Camamu. Uma herança maldita de atraso em que sucessivos gestores anteriores partilham da culpa e da responsabilidade.
Ao longo das décadas, o desenvolvimento de Camamu muitas vezes não passou de uma ilusão alimentada a cada nova eleição, onde a luta pelo poder se sobrepôs ao projeto de cidade.
Ciclos de tentativa e a velocidade do jogo político
Para fazer justiça aos fatos históricos, o município viveu ensaios de mudança desse quadro crônico. As tentativas de romper com o marasmo estrutural ganharam força na gestão de Ioná Queiroz, marcada por conquistas emblemáticas de infraestrutura e desenvolvimento econômico, como a viabilização e instalação da agência da Caixa Econômica Federal — um marco divisor para o comércio e a autonomia financeira da população local.
Posteriormente, o cenário político viu a ascensão rápida de Enoc Souza. Utilizando com habilidade estratégica sua posição como presidente da Câmara de Vereadores, Enoc assumiu a prefeitura interinamente e teve a agilidade de transformar verbas disponíveis em ações e obras rápidas. Essa postura operacional dinâmica caiu nas graças do povo, legitimando-o nas urnas como prefeito eleito, e não mais interino.
Enoc conseguiu capitalizar o momento e eleger seu sucessor, o atual prefeito Irmão Jairo. E é justamente aí que o presente encontra o passado: cabe à atual gestão o peso de explicar e justificar o porquê de Camamu, após esses ciclos de movimentação, continuar sem seguir adiante, falhando em corrigir os gargalos históricos e cruciais apontados pelo IPS.
A Tribuna do Desgaste e a maquiagem das instituições
O termômetro dessa paralisia histórica continua visível nas galerias da Câmara de Vereadores. Assistir às sessões do legislativo camamuense é testemunhar a engrenagem da ineficiência operando em tempo real. Não raramente, parlamentares da própria base de sustentação do governo municipal vão ao microfone para reiterar, pela terceira ou quarta vez, indicações para serviços primários. Pedidos para patrolar estradas rurais ou reformar escolas tornaram-se um mantra repetitivo. Se a máquina pública patina para atender seus aliados, o cidadão comum na ponta inevitavelmente fica desassistido, penalizando os índices de educação e saneamento do IPS.
O mesmo “faz de conta” se repete na Segurança Pessoal, o pior quesito de Camamu no índice (21,25 pontos). O município já presenciou a “inauguração” de sede de Pelotão da Polícia Militar cerca de três vezes em diferentes gestões — todas celebradas com aplausos no legislativo. Mas a verdade é que um Pelotão exige um efetivo real de 30 a 50 policiais para funcionar. Entregar fachadas pintadas sem o incremento real de homens no Diário Oficial é uma ilusão que o crime organizado ignora.
Somado a isso, o histórico apagão do Poder Judiciário, que por longos períodos deixou a comarca sem um juiz titular fixo — obrigando magistrados a acumularem duas ou três cidades —, estrangula o tempo de resposta da Justiça, alimentando a sensação de impunidade.
O que os nobres vereadores conseguem ver?
Diante de um diagnóstico que expõe deficiências estruturais que atravessam gerações, resta-nos fazer a pergunta inevitável que encerra esta reflexão:
O que os nobres vereadores conseguem ver nessa pesquisa?
Camamu tem mais de 400 anos de existência. Se, na percepção dos parlamentares e das lideranças que comandam e os que comandaram a cidade há décadas, o atual estágio de isolamento e atraso social representa o êxito de seus anos de vida pública e de seus mandatos, então o IPS está correto e perfeito em sua dura conclusão. Não é?

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